segunda-feira, 19 de março de 2007

A outra face do amor

Amor é difícil de definir. Quem já esteve enamorado sabe o que é, mas torna-se difícil explicar a alguém o que é o amor quando este nunca o experimentou/ saboreou. As muitas dificuldades que essa diversidade de termos oferece, em conjunto à suposta unidade de significado, ocorrem não só nos idiomas modernos, mas também no grego e no latim . O grego possui outras palavras para amor, cada qual denotando um sentido específico. No latim encontramos amor, dilectio, charitas, bem como Eros , quando se refere ao amor personificado numa deidade. Enfim, a tentativa de definição advém dos tempos mais remotos... e continua por não se chegar a um consenso.

De modo geral, o amor é um conceito que visa formação de um vínculo emocional com alguém, ou com algum objecto que seja capaz de receber este comportamento amoroso e alimentar as estimulações sensoriais e psicológicas necessárias para a sua manutenção e motivação.
No amor reside o sentimento de gratidão, compaixão, doar-se sem a consciente intenção de esperar algum retorno. É o amor, certo?
O bom humor dispara, a vida corre-nos bem, o sorriso anda aparvalhadamente sempre metido na cara, os pássaros parece que não se calam... Nada nos incomoda!

E quando tudo isto acaba? e como acaba?
Será que há alguma forma, bonita ou doce, mais ou menos suave, de dizer ''não te amo''? Como se diz a alguém que já nao se ama essa mesma pessoa? Como preferir a verdade a uma mentira que poderá destruí-la?

Sempre ouvi dizer que ''quanto mais alto se sobe, maior é o tombo''. Logo, quanto mais apaixonamos estamos, mais nos custa bater com a cabeça na parede.
A verdade é que o amor é muito bonito enquanto se usa e abusa dele... com consciência, mas quando termina é a maior dor de cabeça.

Como dizer a alguém que se tornou um amigo de um dia para o outro?
Como explicar a alguém que toda a sua bondade, honestidade, carinho e amor não chegaram para me segurar?
Como dizer-lhe que também precisei de preversão e transgressão?
Como dizer adeus sem explicar nada?

Enquanto pensamos sobre isto, torna-se difícil começar uma despedida, mas já à partida adivinhamos o final.
Começamos por imaginar os olhos da pessoa, primeiro desprevenidos, depois espantados, depois incrédulos e depois mortiços, renunciantes a tudo e à própria vida. Imaginamos o seu desgosto e só queremos que ele entenda, porém imaginando o triste desfecho.

Por um lado, um alívio por sermos sinceros. Por outro, somos egoístas. (Vá-se lá entender a natureza humana).

  • Uns preferem fugir a toda esta explicação, correndo o risco de se tornarem ainda mais egoístas. Preferem ignorar e renunciar os problemas, fazendo com que se ocupem de outrém, tentando esquecer por completo a outra pessoa.

  • Outros preferem uma despedida à distância. Torna-se mais ''seguro'' tendo em conta que não se vê a expressão de desalento da pessoa rejeitada e a conversa é rápida e quase indolor. Possivelmente a atitude com menos probabilidade de falarem novamente...

  • Por fim, aqueles que os têm bem à mão e são capazes de se despedirem da sua situação conjugal olhando bem lá no fundo e explicando o porquê da decisão. Talvez a situação mais dolorosa, mas aquela com mais probabilidade de continuarem a lidar.

Não há uma maneira mais fácil de dizer ''não te amo'', porém o método de transmissão desta mesma mensagem pode variar segundo os objectivos de cada um. Pode ser mais ou menos dolorosa, mais ou menos pessoal e mais ou menos curta, dependendo da personalidade e dos objectivos de cada um.


Resumindo, devemos ser julgados pelo nosso egoísmo activo ou pela nossa passividade reveladora? Devemos ser julgados pelo inconformismo sincero ou pelo conformismo teatral?

No fundo estes inconformistas tornam-se egoístas... mas mais egoístas seríam se continuassem algo, com o coração noutra porta.

Ou não?

domingo, 18 de março de 2007

''Teoria do sabor''

Terá esta teoria ligações com o nosso sabor favorito? Será que tem algo directamente relacionado com as papilas gustativas? Talvez o cheiro? O tacto?
A resposta é... sim! Tem a ver com todos estes factores, mas acima de tudo com a capacidade de um indivíduo experimentar algo novo!

A experiência é o contacto epistémico, geralmente perceptual, (através dos sentidos inerentes ao ser humano tal como o paladar, o tacto, o cheiro...) directo e característico com aquilo que se apresenta a uma fonte cognitiva de informações (características mentais como a percepção, a memória , a imaginação e a introspecção). Em sentido primário, a experiência está ligada às sensações e à percepção. No entanto, algumas vezes as ilusões e alucinação também são consideradas sensações-experiências. O critério para o tratamento de algo como experiência é, muitas vezes, a interpretação da noção de conteúdo. O conteúdo de uma experiência é aquilo que ela representa .

Quero com isto dizer que de cada vez que experimentamos algo, estamos obrigatoriamente conscientes daquilo a que nos estamos a propor.

Qual o propósito desta conversa toda?

Quantos de vocês devora um chocolate por dia? Quantos de vocês devora um maço de tabaco por dia? Quantos de vocês têm (mesmo!!) de correr, surfar, fazer o amor... no final do dia após tanto stress?
Ora, suponho que a maioria de vocês se inclua neste leque variado de experiências.
Ja imaginaram um mundo sem chocolate? e sem tabaco? ...e ja agora, sem ondas e com reprodução apenas in vitro? Impossível de imaginar! Porquê? Porque já o saboreamos...


No meio desta história toda, a experiência a que nos propomos deixa um registo nas estruturas cognitivas, em que este registo fica retido na memória. É-nos assim possível recordar e re-experimentar experiências que resultam em prazer!

Resumindo, a experiência tem o seu conteúdo e o seu carácter ou representação (aquela que nós fazemos dela)... o que nos dá vontade ou não de voltar a experimentar. Sendo assim, é possível afirmar que o sabor (da experiência em si) já lá está e é impossível de desaparecer pois nós já o conhecemos e experimentamos.

Qualquer experiência por mais boa que seja, tem sempre implicações futuras:

  • Tanto poderá ser indiferente, o que nos leva a não experimentar novamente... (Não correndo qualquer risco);

  • Como pode ser uma experiência óptima, espevitando numa maior procura sobre uma nova experimentação da coisa em si. Resultado? O consumo, a prática, ou a repetição de certas experiências em demasia quebram a balança da estabilidade necessária à natureza do ser humano, resultando num aumento dos riscos de saúde, pessoais, afectivos e/ ou sociais.




Resumindo e concluindo, depois de experimentarmos alguma coisa, e independentemente da experiência ser boa, o sabor continua lá... Quer seja o produto, o sabor, ou até mesmo o efeito de ambos, o sabor continua lá e nós sabemos o que encontrar da próxima vez.
Por isso, cuidado com o que experimentam, pois um dia mais tarde pode haver a ''necessidade'' de experimentar novamente... o sabor.

Eu experimentei. Era saboroso!

terça-feira, 13 de março de 2007

Amor Platónico Canibalesco

Em continuação ao texto anterior…

Já algum de vocês sentiu um amor de tal maneira forte, que vos fez emergir um comportamento animal? Sim, estou a falar daquele comportamento que toda a gente gosta!

Trata-se de um tema difícil de explicar pois nem toda a gente pensa como eu, e como ''um caso não são casos'' provavelmente haverá alguém que não se identifique com esta filosofia (possivelmente uma freira).

Obviamente que paixão e amor não é o mesmo. Nisto não há nada de novo. A paixão essa é rápida e fugaz nos dias que correm. O amor (absoluto, e isto quando ninguém se conforma com o que tem) por sua vez é muitas vezes confundido, no entanto é o mais procurado pela sua extrema raridade. Embora sejam 2 conceitos diferentes a sua base é a mesma: O desejo. ...Platão refere mesmo que o amor será o desejo por algo que não se possui.

Relativamente ao Canibalismo, pode-se afirmar sem sombra de dúvidas que é um traço da nossa cultura, muito mais significativo do que se pensa, tendo até causado movimentos estéticos vanguardistas na Europa e Brasil. Não é à toa que o Cristianismo é tido como representante, no Ocidente, da ordem canibal ancestral. A ideia da ceia cristã (ceia do amor) e o ritual da hóstia (palavra que significa ''vítima sacrificial), são uma actualização de um rito intemporal. Em Roma, o próprio médico do Papa Inocêncio VIII recomendou-lhe sangue de 3 crianças de 10 anos. Os epilépticos bebiam o sangue dos gladiadores. Ora... da mitologia Grega aos mitos indígenas Brasileiros, abundam a omofagia e a antropologia/ antropofagia.

...e ainda relativamente ao canibalismo, esta história sobre esta prática advém dos primórdios da origem do Homem ( e da mulher também, embora as paneleirices começassem a rolar também a esta altura do campeonato). Já os homens do Paleolítico Inferior (que viveram há cerca de 2 milhões de anos atrás) realizavam este sacrifício.
As pessoas não gostam de pensar no canibalismo. O canibalismo é uma acusação que fala da inigualável crueldade humana. A maioria dos animais jamais come um indivíduo de sua própria espécie. Entre os homens, foi uma prática comum. Antropólogos e historiadores acreditam que o canibalismo foi uma das alavancas do processo de evolução.


Reparem, além de vários povos conseguirem a sua história, a sua cultura, o seu código de conduta (embora nos pareça estranho), outros por sua vez conseguiram subsistir graças à carne de outros.

...mas o canibalismo não termina no sentido mais objectivo da própria definição da palavra. O canibalismo, o desejo, o amor platónico entre homem - mulher fez com que a própria paixão se tornasse na única alavanca possível para o desenvolvimento da raça (como qualquer outra). O instinto torna-se então um acto canibal em que o impulso se transforma numa possessão.

...por isso, o canibalismo amoroso é apenas uma dessas formas desse ritual; talvez o que concentre o patológico, o religioso, o alimentar, e imaginariamente, o mais compulsivo! Quero com isto dizer que o Amor Canibalesco não pode ser entendido no verdadeiro sentido da palavra, mas no sentido em que nós queremos ter, possuir e apoderar-nos de tudo da outra pessoa.

Quantos de nós já teve em mãos um Amor Platónico ( um amor perfeito, ideal, puro, casto, alheio a interesses ou gozos, no entanto um amor impossível de se realizar) em que o desejo por possuir fosse de tal maneira grande, em que só nos apetece dar uma dentada? Quantos? E aquando o acto sexual, em que espetámos as unhas bem fundo e trincámos? ..já para não falar nos Sado-masoquistas... Isso o que é, se nao é canibalismo? Se não é... trinquem a almofada!

No fundo, o amor platónico canibalesco, é uma situação em que não chegámos a consumar (totalmente) o prato que temos à frente!

…e para terminar, como prova que este amor absoluto, intenso e verdadeiro (ou até platónico) chega de facto a ser canibal, aqui fica uma amostra:


''Sem metade eu não sou nem tão pouco me dou. Não me transformes em restos.
Come-me com vontade, assim a frio, mesmo que eu não saiba se choro ou se rio.
Espeta-me as tuas garras e devora-me sem piedade, não temas pela saudade, estarei dentro de ti.
Rói o mais duro de mim e saboreia as minhas fraquezas, engole alegrias fracassos e tristezas.
Bebe-me o sangue, o olhar, o pensamento, o riso, o juízo, o ser, o estar, o querer amar.
Rasga a minha pele com os teus dentes, mesmo que o sal não esteja a gosto.
Come-me o desgosto que é querer e não ter a quem me dar, agora que me tens e me dou ao teu paladar.
Trinca-me as mãos que escrevem coisas que eu não percebo e que recebo do além vindas de não sei quem.
Se me queres comer, come-me depressa, antes que o arrependimento chegue, fale e aconteça.''



...sendo este o amor verdadeiro o nosso… Deixas-te comer?

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Conformização Amorosa

A sociedade de hoje dia é extremamente heterogénea, sendo que da genética e da interacção desta com o meio, causa indivíduos bastante diferentes entre si em todos os aspectos.
A genética é capaz de atribuir diferentes características a um sujeito, podendo este ser alto-baixo, magro-entroncado, cabelo escuro-claro. O mesmo se passa com a personalidade de uma pessoa; esta pode ser autruísta-egoísta, alegre-carrancuda, etc...

Sendo que o ser humano vive numa Utopia para além do desconhecido, parto do princípio que ''ele'' prima sempre pelo melhor para si, de forma a esperar o inesperado. Isto é, trabalha para conseguir aquilo que quer... Diga-se então então que pela sua história o ser humano não é nada conformista, mas bastante radical/ irreverente!
Daqui surgiu uma dúvida que se me instaurou desde cedo. Será que sou eu o esquisito ou os outros são demasiadamente fáceis nos seus gostos?

Ora, imaginando que as características físicas e psicológicas numa pessoa podem ser intermináveis, a sua junção pode ser infinitamente interminável. Isto é, alguém alto com cabelo claro poderá ser autruísta, enquanto que poderá haver outro alto com cabelo claro nada simpático e ainda outro alto com cabelo escuro bastante alegre, e... (...) bastante carrancudo, etc... O que eu quero dizer é que não falta homens e mulheres para todos (os gostos).

Então, se o ser humano busca sempre o melhor para si, porque é que por vezes se conforma com um(a) homem/ mulher , sendo que pode ter muito melhor?
Quantas vezes é que vocês vêm uma mulher com um homem que nada tem a ver e vice-versa? Quais os argumentos para isso? Será rico? Será um tipo 5 estrelas? Ou há algo de inexplicável por trás disso? Será isso o amor inconfundível que todos procuramos incansavelmente?
...se calhar é o tipo de amor que toda a gente questiona (tipo eu), ao invés de haver outros relacionamentos em que se acha normal por terem alguma complementariedade.

Obviamente que há pessoas para tudo, umas mais conformistas que outras em todos os aspectos da vida, desde o tipo que trabalho que tem, desde o seu papel social e familiar, até aos parceiros amorosos com quem vive.

Eu pessoalmente, não sei se sou eu o esquisito, se são os outros que são demasiadamente afáveis; Sei é que há pessoas que se parecem conformadas com a sua situação actual amorosa e tendem em não mudar e arriscar em busca da felicidade eterna absoluta.

  • Segundo ''eu'', as características principais do ser humano que nos permitiram chegar até aos dias de hoje:
  1. Capacidade de adaptação (talvez a maior de todas)
  2. Busca eterna pela felicidade (por isso vivemos)

Parece-me então duas tendências humanísticas que em termos amorísticos primam pela sua diferença.

Muitas das pessoas que falo confundem a sensação de felicidade absoluta com uma ligeira conformização pela situação actual, fazendo com que não conheçam sequer a felicidade em si, conhecendo apenas o seu tipo de felicidade, a felicidade relativa! ... e sempre ouvi dizer que quem não conhece, não desdenha! Ora, esses mesmo sujeitos estão conformados com o seu tipo de vida, com o seu parceiro, sendo que não estão predispostos a ter outras felicidades, diferentes e/ ou opostas.

resultante deste pensamento, chega-me outra pergunta:

Serão os amantes, os eternos inconformistas? Amantes = irreverentes? É algo a desenvolver...


Continuando e pegando no assunto anterior... Há várias predisposições de conformização:

  • Uns tendem em conformar-se pois têm consciência que será extremamente difícil encontrar alguém que lhes agrade a sua pessoa (fisica e/ ou psicologicamente). Isto é, há casos de pessoas com fraca auto-estima que não têm coragem de procurar ainda mais avante pois pensam que se trata de uma tarefa impossível. Este aspecto está entao relacionado com a auto-estima e com um fraco auto-conceito físico.

  • Outros primam pela quantidade de tempo gasto numa relação. Isto é, como primeiro pensamento à tentativa de irreverência vem o tempo a que a relação já predura, tendo medo ou inquietude pelo terminar da relação. Vêem então como um esforço/ investimento que fizeram durante todo este tempo e não podem de maneira alguma terminar pois podem vir a perder a ''felicidade relativa''.

  • Outros gostam mesmo e pensam que nunca vão encontrar ninguém igual!

Resumindo, devido ao facto de haver pessoas de todas as formas e feitios, acredito piamente que há o amor verdadeiro ( felicidade absoluta) mesmo que com uma conformização amorosa extrema. No entanto, se por um lado sou muito pouco céptico, tenho de ser coerente e voltar a admitir a outra possibilidade: Há confomidade perante várias relações!... até na felicidade absoluta (que remédio).

Pessoalmente, recuso-me a entrar num estado de felicidade relativa sem antes conhecer a felicidade absoluta. Sim, estou a dizer que um dia poderei entrar num estado conformista perante uma relação conjugal. Até lá... não desisto.


..mas nunca saberemos se o que temos é relativo ou absoluto!